O nascimento do meu filho mais velho aconteceu no momento mais difícil da minha vida. Ele veio ao mundo de forma prematura, no sexto mês de gestação, após uma gravidez marcada por riscos constantes de morte. Antes disso, minha esposa já havia enfrentado um aborto espontâneo. Como se não bastasse, naquele mesmo período recebi a notificação de que havia me tornado réu em um processo judicial inventado (sic), situação que me fez perder renda, bens materiais e o próprio emprego formal por quase dez anos. Apesar do apoio de alguns parentes, amigos e irmãos da igreja, houve momentos em que a dificuldade batia à porta e simplesmente não havia com quem contar.
Certa sexta-feira, eu e minha esposa nos vimos diante de um dilema. O pagamento de alguns serviços temporários ainda não havia caído, o leite do nosso filho tinha acabado e ele mamava de duas em duas horas. Faltava meia hora para o mercado fechar. Nossos vizinhos de apoio não estavam em casa. Alguns amigos que receberam nossa mensagem acharam que se tratava de golpe. Quem respondeu disse que não tinha dinheiro. Quem tinha, prometeu transferir, mas o valor só cairia na segunda-feira — Naquela época não existia Pix. Poucos dias após o retorno do nosso filho do hospital, nosso lar não conseguia recebê-lo como deveria.
No desespero daquele momento, tive uma ideia: roubar uma lata de leite na farmácia perto de casa. O plano era pegar a lata e correr, entregar o alimento para minha esposa e aceitar ser preso, contando que, de alguma forma, o Estado acabaria sustentando meu filho. No meu planejamento não estava a possibilidade de ser morto; pelo menos era o que eu esperava. Ainda assim, eu estava consciente de que teria de assumir as consequências.
Pedi que minha esposa me esperasse na portaria do prédio. Não dei explicações. Apenas disse que voltaria com o leite. Quando cheguei à farmácia e estava prestes a executar o plano, encontrei um vizinho. Sem rodeios, pedi a ele emprestado o valor da lata de leite. Ele passou o cartão de crédito e paguei na semana seguinte…
Resolvi compartilhar essa minha história depois de conhecer uma pesquisa realizada pelos economistas Breno Sampaio, da Universidade Federal de Pernambuco, Diogo Britto e Paolo Pinotti, da Universidade Bocconi, na Itália, e Roberto Hsu Rocha, da Universidade da Califórnia em Berkeley. O estudo utilizou um banco de dados com todos os processos criminais em tribunais de primeira instância do país entre 2009 e 2020, além de informações do Cadastro Único e da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) referentes à década de 2010 — período que coincide com a minha vivência.
De acordo com a pesquisa, no Brasil, a chegada do primeiro filho aumenta em 18% a probabilidade de o pai cometer algum crime nos dois anos seguintes ao nascimento da criança. Os pesquisadores apontam evidências de que o principal fator por trás dessa relação é econômico: a falta de recursos para cuidar do filho. Embora o estudo ainda não tenha sido publicado em revista científica, utiliza métodos técnicos correspondentes com variáveis reveladoras.
Fases e condições de vida incompatíveis com a sobrevivência humana podem levar um indivíduo a comportamentos escondidos de sua natureza e razão. Ao mesmo tempo, o custo da desonestidade — do descumprimento da lei, da ética e da moral — sempre é alto, pois inevitavelmente cobra suas consequências. Em um país rico e profundamente desigual, o sistema jurídico, político e econômico, muitas vezes acabam ampliando os efeitos da falta de dignidade humana. A falta de honestidade e a fome tem um preço alto.
