Carolina Maria de Jesus Carolina Maria de Jesus. 27 de maio de 1952. Foto de Norberto Esteves. Detalhe de foto do Arquivo Público do Estado de São Paulo/Última Hora
Não deu samba com Carolina Maria de Jesus
O anúncio de que a Unidos da Tijuca levaria para a avenida um enredo em homenagem a Carolina Maria de Jesus gerou expectativa. Não apenas pelo peso histórico da autora, mas pela potência simbólica de sua obra Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, um dos relatos mais contundentes sobre fome, exclusão e desigualdade já publicados no Brasil. No entanto, a promessa de reverência inspirado na “personagem” para mim se transformou em frustração.
A letra do samba-enredo opta por um caminho genérico. Em vez de mergulhar na densidade literária e política de Carolina, dilui sua trajetória em contextos aleatórios, amarrados a um refrão chiclete que exalta mais a escola do que a própria homenageada. A fome que ela registrou com precisão cortante não era metáfora; era realidade crua. Conforme registrou Audálio Dantas (1929-2018), o jornalista que descobriu, editou e publicou seu livro, “Carolina viu a cor da fome — a amarela”.
O samba-enredo, ao misturar referências difusas sobre desigualdade com exaltações típicas do carnaval, perde a oportunidade de afirmar o diferencial da escritora: sua escrita como ato político. Faltam versos que evoquem o diário, a lata d’água, o papel recolhido do lixo, comer comida do livro e a sua sublimação de denunciar essa mazela. Falta a radicalidade de uma mulher que escreveu para não enlouquecer e, ao escrever, expôs as entranhas do país.
Se o samba pretendia celebrar sua memória, precisava ir além do lugar-comum. Porque Maria Carolina de Jesus, com sua literatura crua, lúcida e incômoda, não cabe em versos que apenas rimam pobreza com esperança. Ela exige densidade. Exige verdade. Exige que sua história não seja apenas cantada, mas compreendida. “Nota 0”!
